De: David Afonso - "Má ideia (e outros pontos)"

Submetido por taf em Segunda, 2008-01-21 23:18

Estação de S. Bento

1. A campanha "Portugal, The Europe´s west coast" não deixa de surpreender. Dali só se aproveita o esforço para promover Portugal para além das praias e do golf porque, de resto, a campanha é um desastre. Nada bate certo neste nosso exercício de auto-promoção e a começar pelo grafismo que é pobre e desinteressante. A qualidade do trabalho é tão fraca que a companhia do sr. Nick Knight - a ShowStudio - nem a incluiu no seu dossier de campanhas disponibilizado no seu site. Não os censuro: aquilo é mesmo mauzinho. E depois o que dizer daquela opção bizarra de exibir o nome do fotógrafo? Portugal by Nick Knight?!!! Isto não será um pouco imbecil? Reparem o que se está a dizer ao mundo é que não temos criativos entre nós e que nos pelamos, como bons provincianos, pelas marcas de prestígio (esfregamos na cara da Europa este trunfo: «Vejam, vejam é um Nick Knight! Sim, o da Swarovski, da Dior, do Galliano e de todas as topmodels. Não somos uns pelintras, não!» Enfim, o mesmo mecanismo compensatório que algumas subclasses sociais utilizam quando ostentam os logos das marcas caríssimas nas camisas, nos carros e nas progenituras). E afinal de contas, qual é o público alvo? Nós ou os outros? É que esta campanha até parece ser para consumo interno dada a proliferação de outdoors e de publicidade na imprensa nacional. Que sentido fará colocar um cartaz descomunal - e feio - na fachada da bela Estação de S. Bento? De certo que não é para os camones porque esses preferiam ver a obra de Marques da Silva, pelo que me atrevo a dizer que o alvo somos nós, os nativos. Com que finalidade? Não faço a mínima ideia, mas também não devo estar sozinho nisto. Mas voltando à fachada da Estação de S. Bento. Aqui, a sinalética oculta o que pretende sinalizar. A campanha pretende divulgar a marca Portugal, mas tapa-o literalmente. Quem deve ficar na fotografia: o património classificado ou o trabalhinho photoshop do Nick? O centro da campanha é ela própria, é a vaidade enjoativa e delirante dos nossos decisores. Portugal é um outdoor. A melhor maneira de vender um produto é exibir as suas qualidades. Embrulhá-lo numa embalagem tão foleira não ajuda. Acho que conseguimos vender melhor o Porto sem aquela coisa a tapar o nosso património arquitectónico. Sugeria, portanto, à Câmara Municipal do Porto que solicitasse com carácter de urgência ao ICEP a remoção daquele cartaz horrível, instalado, ainda por cima, em pleno Centro Histórico - Património da Humanidade! Em alternativa, que aplique as devidas coimas que sempre dão jeito para equilibrar as contas.

Outros pontos:

2. Na verdade, a CMP já caiu em si e já começa a olhar com outros olhos o fenómeno Miguel Bombarda. Aliás, fiquei convencido de que Rui Rio se tinha decidido por uma recandidatura quando vi o logo da Porto Lazer na campanha promocional do evento. De resto, também acho que se está a cair no exagero e toda aquela palhaçada é excusada.

3. Após cidades menores terem dado o exemplo, o Porto também já oferece acesso wi-fi gratuito em espaços públicos. Vá lá, demorou mas fez o que tinha a fazer e por isso a Câmara está de parabéns. Só um aspecto não me agrada muito: não seria melhor concentrar o serviço na Área Crítica de Recuperação e Reconversão Urbanística (ACRRU) em vez de o dispersar pela cidade?

4. Sou cliente ocasional do Bolhão e só lá vou para encontrar produtos que não encontro em mais lado algum (azeitonas de toda a variedade e ervas aromáticas, por exemplo). Para mim é claro que o mercado bateu no fundo e que assim não poderia continuar. Também é claro que o estado de degradação física e comercial do Bolhão resulta de um conjunto de variáveis, das quais não se exclui a vontade política (a degradação do Bolhão foi, em grande parte, programada). Sobre o actual projecto (e não falo apenas da arquitectura) não sei o que pensar porque não o conheço. O problema aqui situa-se noutro plano, que é o da participação pública nos processos de decisão política. Estas intervenções urbanas - pela sua dimensão material e simbólica - deveriam ser vistas como oportunidades de refundação da cidadania portuense. Por cá, faz-se tudo ao contrário: primeiro decide-se, depois debate-se ou... protesta-se. A Câmara devia ter promovido um debate prévio alargado e despartidarizado em torno do futuro do Bolhão, legitimando desse modo um programa para o concurso. Agora, só lhe resta desarmadilhar a situação, esclarecendo as legítimas interrogações da cidade.

David Afonso
adm@quintacidade.com