De: António Alves - "Respostas ao 1º post de Emídio Gardé"

Submetido por taf em Domingo, 2008-01-13 18:06

Algumas respostas ao 1º post de Emídio Gardé:

1) A ligação ferroviária via metro serve os residentes na Área Metropolitana do Porto e os forasteiros que provenham do estrangeiro. Para quem pretenda utilizar o Aeroporto Sá Carneiro (ASC) e tenha origem nas regiões limite da sua área de influência não serve porque, como referi no meu trabalho, além do desconfortável transbordo, aumenta o tempo de viagem em 48 minutos para quem vem do Norte (Vigo e Braga) e em 34 minutos para quem vem do Sul (Coimbra, Aveiro e outras localidades). O ASC está bem servido no que concerne a acessibilidades rodoviárias mas mal servido no que respeita a acessibilidades ferroviárias de longo/médio curso. E estas no futuro, até pelos preços cada vez mais instáveis do petróleo, serão cada vez mais importantes. Levar o comboio ao ASC através da Linha de Leixões será vantajoso mesmo que a LVE Porto-Galiza não venha a ser construída: aumentará a competitividade do ASC a Sul, dando-lhe mais armas para concorrer com os outros aeroportos.

2) Claro que a Linha Porto Vigo é política. São todas. O objectivo político é promover o desenvolvimento das regiões. E esta linha será mesmo a única - tudo indica que o eixo Aveiro-Salamanca nunca será construído - que nos ligará dum modo mais eficiente à rede espanhola de “altas prestações”; e através dela à rede europeia de bitola standard, quando no futuro a migração acontecer (2020). Ter que descer para Sul 300 km até Lisboa, fazer mais 200 km para Leste e depois subir 500 km em direcção a Madrid não me parece uma opção muito inteligente. Será mais inteligente, mais rápido, e possivelmente mais barato, subir à Galiza e daí derivar para o importante centro logístico de Valladolid que, esse sim, nos liga à Europa. Muito mais importante que os passageiros são os canais de circulação de mercadorias. Para essas existe uma outra possibilidade que é utilizar a Linha do Douro.

Ligações ferroviárias

Fonte: PEIT; Ministério do Fomento de Espanha

O melhor exemplo de linha política é a Linha Lisboa – Madrid. É um traçado que deixa de fora, pelas razões enunciadas acima, mais de 5 milhões de portugueses. Será sempre uma linha “sem retorno comercial visível a curto e médio prazo”. Os estudos da própria RAVE concluem até que o corredor Porto-Madrid tem uma procura superior ao corredor Lisboa-Madrid. No entanto, em vez do T deitado – sim, o ex-ministro Cravinho neste ponto tem razão – que juntaria os tráfegos do Norte com os da região de Lisboa, optou-se pela ligação via Évora/Badajoz. Imagina algo mais político que isto? A paragem em Évora gastará mais dinheiro em cepos de frenagem e consumo de energia do que aquele que será obtido através das receitas de bilheteira nesta cidade. A estimativa da RAVE, no mesmo estudo, para o corredor Porto-Vigo foi de 10,7 milhões de passageiros e 4,7 milhões de toneladas de mercadorias.

Procura

Fonte: RAVE

A notícia que referencia é uma não notícia. A secretária de Estado de vez em quando tem que dizer alguma coisa mesmo que não tenha nada de novo para anunciar. Ossos do ofício político. Há muito que sabemos que a ligação Porto-Vigo não será uma via de alta velocidade – aliás, é mesmo pomposo chamar-lhe Linha de Velocidade Elevada. É apenas um upgrade da Linha do Minho e um novo troço de Braga a Vigo. E ainda bem que assim é. É suficiente e racional. Acabem-se de vez com as confusões: esta via não passa duma banalíssima via ferroviária com os padrões minimamente aceitáveis nos dias de hoje. Não vai haver aqui nenhum TGV. Aposto até que serão os actuais pendulares que lá circularão. É uma linha que a Região merece e que há muito nos é devida. O caminho-de-ferro no Minho tem sido pura e simplesmente abandonado. Ir do Porto a Ponte de Lima em pouco mais de 40 minutos (30 minutos a partir do ASC) será fantástico para o desenvolvimento turístico de todo o Alto Minho. Sim, a linha não vai servir apenas para fazer comboios directos Porto-ASC-Braga-Vigo. Haverá espaço para regionais-expresso que sirvam o Minho. No entanto, eu estou convencido que a Linha Porto-Vigo é bem capaz de se tornar mais sustentável que a Linha Lisboa-Madrid. Basta atentar no tráfego fronteiriço das duas regiões em causa. O mercado existe, cabe ao caminho-de-ferro saber explorá-lo.

Pessoas que entraram em Portugal por via rodoviária

* Turistas são os que pernoitam pelo menos uma noite; Excursionistas são os que regressam à origem no mesmo dia.


Veículos pesados


3) O que eu proponho, ciente das características da Linha de Leixões, é a elevação da sua velocidade máxima para 100 km/h. Nada de extraordinário. Medíocre até.

4) Aqui estamos de acordo, apenas com uma pequena diferença: eu preferiria que fossem os eléctricos a subir a fantástica rampa da Alfândega até Campanhã. São mais leves, versáteis e mais indicados para o tipo de tráfego previsto. A adaptação da infra-estrutura ficaria também mais barata.

Cumprimentos,
António Alves