De: Rui Encarnação - "Obrigatório ver"

Submetido por taf em Terça, 2007-12-11 15:22

Apesar de duvidar que o Música No Coração me possa surpreender, pelo menos pela positiva, fiquei feliz de saber que alguém do Porto sempre vai ao Rivoli, pelo menos uma vez, ver o que agora por lá passa. É que não podem ser só camionetas e excursões de ditos desprotegidos e idosos. E ficarei mais feliz, ainda, por saber que os portuenses que agora lá vão são público conquistado e, como tal, pagador de bilhete, pois esse é o público que com dificuldade, arte e talento se conquista. O outro, o das inaugurações e convites, é fácil de assegurar, basta o gosto do português pelo grátis para o conseguir ter com fidelidade e assiduidade.

Surreal é ver que para parte dos nossos habitantes as questões essenciais à roda do Rivoli e daquilo que se chama de política cultural e de animação da cidade ficam à porta do tapete vermelho e das estreias com glamour. Parece que ninguém vê, nem quer ver, que o espectáculo comercial do Sr. La Feria está a ser subsidiado por todos nós, tendo como única contrapartida os rendimentos que ele, La Feria, recebe.

Agora, a CMP perdeu a vergonha, e isentou o Sr. La Feria de pagar 5% da receita de bilheteira, apenas porque o Sr. supostamente é incompetente e não viu as condições do teatro (consideradas, apenas, na óptica de servir para os espectáculos dele) antes de aceitar tomá-lo para si. E, mais, a CMP reconheceu que o Teatro era deficitário em termos de infra-estruturas e poderá estar obrigada a comprar ao Sr. La Feria as coisas que o Sr. La Feria para lá adquiriu, na exacta medida dos seus interesses e necessidades. Sabe lá Deus que serventia poderão ter para outros agentes e espectáculos que depois dele possam lá ser exibidos (talvez na era DR) e, também, se o dinheiro não poderia ter servido para dotar o teatro de outros equipamentos de que precisasse.

E, se lerem o contrato de, suposto, acolhimento e aditamento a este que a CMP e o Sr. La Feria, através da empresa da Dª Ermelinda, subscreveram ficarão siderados por saber que a empresa apenas ficou obrigada a caucionar eventuais danos até ao limite de 8 mil contos. Talvez para repintar as pinturas que lá fizeram e para repor a acústica que destruíram! Se somar a isto a publicidade que a CMP tem feito, que se saiba, de graça, apenas aos espectáculos do Sr. La Feria, os bilhetes que terão sido comprados pela CMP e por outros entes públicos para distribuição pelos ditos desfavorecidos, facilmente concluirá do que se trata ali.

Mas isto não importa. Pois nada importa. Usem-se os métodos que se usarem, faça-se o que se fizer, nada importa, a não ser a luz da ribalta. E essa, perdoem-me, é fraca. Pois comparar o Sr. La Feria a uma Leni Riefenstahl, é só motivo de riso e lágrimas. E esta, a Leni, bem sofreu na pele pelo que, com tanto talento artístico, retratou. O nosso (da CMP, é claro) encenador é que não está pra isso, pois ainda se permite dizer que, se tivesse dinheiro comprava o teatro. Só é pena que a ele, La Feria, não se aplique o ditado: quem não tem dinheiro não tem vícios!

A ver vamos, no tempo e com o tempo, se esta concessão de benesses se fica pela discussão política ou se não entra no plano das contas que quem as concedeu terá de dar, nas urnas ou nos tribunais.