De: Vítor Vieira Alves - "O Porto dos Pirosos"

Submetido por taf em Domingo, 2007-12-02 23:57

Se dúvidas houver, importa tornar pública a minha declaração de interesses: Não gosto da actual regência da Câmara Municipal do Porto, não concordo com a sua orientação estratégica, envergonha-me a postura da oposição socialista e tenho uma alergia visceral ao estilo moralista do Dr. Rui Rio! Talvez por isso, sou muitas vezes confrontado com a acusação de sectarismo nas apreciações que faço dos mandos e desmandos da actual regência autárquica. Seja! No entanto, não posso deixar de expressar o meu desencanto por mais esta opção estética dos senhores da CMP e satélites municipais: As celebrações natalícias!

A cidade não pode ser indiferente ao desenvolvimento económico daqueles que nela criam emprego e riqueza. Deve acarinhá-los, incentivá-los e facilitar-lhes a iniciativa, no escrupuloso cumprimento da lei e regulamentos. Daí que as acções conducentes à atractividade da cidade, em sadia concorrência com o resto do país, é uma estratégia desejada e que deve ser apoiada. Ora, mas vale tudo? É legítimo e aconselhável, nesse desiderato, transformar a cidade numa "feira"? Não sendo da autarquia o papel de "grande educador", pode, no entanto, explorar e incentivar a piroseira e o mau gosto?

Começando pelo aborto estético da Feira dos Aliados. Refiro-me obviamente à famosíssima Maior árvore de Natal da Europa. Para além da monstruosidade da sua dimensão e animação luminosa, é toda a ocupação do espaço envolvente. Eles são barraquinhas de pipocas, castanhas, comes e bebes,... e a desinteressada presença publicitária do patrocinador. Dir-me-ão que o povo gosta e ocorre em peregrinação para olhar de espanto tão magnífica obra da engenharia. É verdade! A notícia de excursões dos concelhos circundantes e dos longínquos Trás-os-Montes e região duriense dão nota desse inusitado interesse. Eles acotovelam-se na busca da melhor perspectiva e, seja do passeio, seja dentro das viaturas que entopem o trânsito da Avenida, procuram captar tão inefável imagem!

A segunda nota desta saga, vai para a inaudita Roda que ocupa o passeio da Cadeia da Relação. Confesso a minha estupefacção quando vi tamanha barbaridade. O que é isto? Será snobismo da minha parte, inferir que tais equipamentos não têm lugar num espaço que é património nacional? Agora se percebe o desprezo com que esta regência camarária trata o espaço Património da Humanidade.

Para terminar, devo referir a iluminação das ruas. Ano após ano o Porto mais parece uma qualquer aldeia ou vila do interior que, sem desprimor para o esforço destas autarquias face aos recursos humanos e financeiros que dispõem, ornamentam as suas ruas com combinações estéticas de gosto muito duvidoso. As combinações cromáticas encontradas levantam-me suspeitas sobre as qualidades oftalmológicas dos seus desenhadores. Ou será que é o nosso edil quem define os modelos e cores a utilizar?

O Porto, cidade Invicta, baluarte de lutas memoriais, que erigiu a Torre dos Clérigos, o Museu de Arte Contemporânea, a Casa da Música, entre outras, está a tornar-se no Porto da Pirosice!

No entanto há sempre excepções! Os meus parabéns a quem desenhou a iluminação da Rua Galeria de Paris. A sobriedade, tão inscrita no património portuense, e a forma como tiraram partido da coloração das folhas das árvores (não perceptível na imagem) merece o destaque e a felicitação aos seus autores e patrocinadores.

Rua Galeria de Paris