De: Teo Dias - "Ruas do Porto"
E se esta rua já não fosse a minha, ou a nossa, ou daqueles que há dezenas de anos aqui habitam?
E houve uma primeira primeira publicação sobre a "animação nocturna" publicada em "A Baixa do Porto"
E houve um artigo de jornal em que se entrevistava um empresário nocturno da dita rua.
E houve, no "Público", um artigo do senhor Amílcar Correia...
E eu nada disse, e eu calei-me... São jovens, deixá-los!
Mas será que o Porto só deve viver à noite? Será que uma cidade só se pode afirmar pelo simples facto que uma população não indígena a invade a certas horas do dia ou a certos dias da semana?
Eu nada sei dessas coisas difíceis do desenvolvimento sustentável das cidades, eu nunca reflecti a sério sobre a importância de atrair populações para os centros urbanos, não sou arquitecto, nada sei de movimentos pendulares, nunca encontrei um urbanista... Mas, caro Tiago, eu sei olhar para cima, e olhar de cima para baixo. Os casos da vida, os acasos, os encontros, as leituras talvez me tivessem dado uma certa distância em relação ao que se vive no Porto. A origem da cidade está fundada no negócio, não no ócio.
Eu nasci aqui... há muitos anos. Vivi o Porto como muitos putos da minha geração. Achatava o nariz e sonhava com as guloseimas da "Nova Indiana", contava as "c'roas" para saber se tinha orçamento para os brinquedos dos "Três Vinténs". Ia para a escola a pé, sim, ali na Travessa do Carregal, depois tinha direito para frequentar as sessões de Domingo do "Carlos Alberto"... Mais tarde, em casa havia telefone e rádio, mas a televisão não... comecei a poder frequentar às Sextas à noite o café onde se reunia a plebe...
O centro da cidade era vivo durante o dia... Muito cedo, os eléctricos começavam a transportar os empregados para o centro da cidade e outros para empregos mais longínquos. De manhã, pelas seis ou sete horas havia proletários que silenciosamente, de bicicleta, se aproximavam da Baixa. O puto de 11, 12 anos tinha passe escolar. O puto começava a descobrir outros horizontes do burgo. Aqui, na Vitória, em Cedofeita, em Miragaia, vivia-se na rua, de dia. Os estudantes estudavam, os trabalhadores trabalhavam... seis dias por semana. E quem trabalha e quem estuda precisa de descanso.
Sim, as pessoas viviam assim nos anos sessenta. À meia noite, era noite, escura, policiada, reprimida. Os empregados dos cafés retiravam as chávenas, reduziam as luzes, a cidade ia dormir.
Sorte ou acaso. conheci gente diferente, muitos, cruzados na vida, cruzados na rua não me reconhecem. Mas as pessoas viviam na Baixa da cidade, as pessoas não vinham à Baixa da cidade como visitam um jardim zoológico ou um "porto dos velhotes". As escolas, as faculdades, cabiam entre a Boavista e a Cordoaria... Os jovens, chegados das vilas, das cidades e das aldeias, moravam na sua periferia. É verdade que o Instituto Comercial estava descentralizado desta vida, estava em Entreparedes, lá para a Batalha...
Sorte ou acaso. vivi o final dos anos sessenta, aqui, entre o Ceuta e o Piolho, entre o Rialto e o Avis. Frequentei as tascas da Travessa dos Congregados e o Ginjal no Bonjardim. Comprei livros na Unicepe, assisti a ensaios no TUP, ia às matinés clássicas do Batalha e às sessões do Domingo do Cineclube do Porto, cruzei-me com muita gente na Árvore. O centro cultural do Porto existia à volta da Cordoaria.
Sorte ou acaso, também descobrimos a Ribeira e as tabernas, com estivadores, que encerravam as portas ainda havia sol. Ainda me lembro de subir a Rua de S. João a cantar em coro... "pus o pé, molhei a meia..."
Sorte ou acaso, ainda conheci famílias que moravam na rua de Ceuta (será que alguém está com a intenção de terminar esta rua?) Mas Tiago, ainda se lembra do Porto viver com gente que morava no Porto e que vivia durante o dia? Ainda se lembra dos camiões a descarregarem hortaliça e outras coisas no Bolhão ou no Bom Sucesso?
Depois... a sorte ou o acaso levaram-me para longe da cidade, para longe dos amigos. O Porto durante as férias sempre foi uma cidade morta.
Sorte ou acaso, voltei à freguesia onde nasci. O choque. A desilusão. É a cidade morta, adormecida, suja. Durante sete anos que percorri, que caminho netas ruas de dia ou de noite, que conheço as mazelas dos prédios e o desconforto dos passeios, como noutros tempos, conheço os comerciantes, cumprimento gente na rua - sou um ser urbano.
E se esta rua já não fosse a minha?
(Eu que no 5 de Outubro festejo a República? Eu que no ano passado fui até à Rua Cândido dos Reis - animada. Mas nada vi na rua Miguel Bombarda?)
E se este Porto já não fosse o meu?
Eu a olhar para cima: nem pensem, meninos, olhai durante o dia, as construções selvagens impedem de transformar a Galeria de Paris em "Passage Choiseul". A Galeria de Paris nunca foi, nunca será uma obra de arte, quem lá passa à noite nunca viu o cimo de um prédio, nunca soube que as "ruas cobertas" de Paris fecham à noite. As ruas mortas, as cidades mortas não se ressuscitam só à noite. Têm que viver com as pessoas que lá vivem ou que para lá vão viver 24 horas por dia, 12 meses por ano.
Eu a olhar para baixo: aqui e agora.
Aqui - centenas de metros da Baixa, menos centenas da "galeria nocturna".
Agora - madrugada de Domingo. Barulho na rua desde Quinta-feira. de tempos a tempos, pela noite fora, até às seis, grupos ruidosos que me impedem de dormir. Chego a casa, um tipo encostado a um portal a urinar. Mais tarde abro a janela... mais outro, ali, quase em frente a aliviar-se contra um contentor do lixo.
Aqui - já sei que amanhã, com um pouco de sol ou um pouco de calor, ali em baixo, a rua vai cheirar a mijo.
Aqui - na rua onde eu vivo, apetece-me perguntar ao senhor Amílcar Correia se ele vive na Baixa do Porto ou se existe um bar aberto toda a noite junto da entrada do condomínio onde vive.
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Teo Dias
ruasdoporto.blogspot.com
