De: Jorge Ricardo Pinto - "O colectivo e a técnica"
Caro Pedro Aroso
Concordo com tudo o que escreveu, mas, no meu entender, só reforçou o que eu próprio havia escrito. Por várias razões:
1 – O edifício neo-manuelino, se não é único, é extremamente raro na cidade (assim de repente nem me lembro de nenhum outro). Por isso, tal como a Garagem de Rogério de Azevedo é uma peça inovadora, esta casa representa uma tendência nova e efémera na cidade na transição de século, por melhor ou pior que seja a qualidade da obra e da assinatura de quem a desenhou.
2 – Fala na história da arquitectura. Mas eu refiro-me à história da cidade que é tão ou mais importante que a anterior e são coisas bem diferentes. O edifício da Foz não terá feito escola, não terá sido inovador para o país nem terá marcado um momento importante na história da arquitectura. Assim será, ainda que as três premissas possam ser discutíveis. Mas na leitura da cidade e da sua história, o edifício retrata um período da vida do Porto, do encanto pelos prazeres Atlânticos, da partida da burguesia endinheirada para o Ocidente portuense e das novas tendências pastiche finiseculares que conferem uma nova paisagem urbana. Aquele edifício contém parte da identidade daquele lugar naquele período, da altura em que ainda nem existia Avenida Brasil e era a ventosa estrada de Carreiros descrita por Ortigão que via chegar estes novos palacetes dos novos-ricos, por oposição ao que acontecia na parte sul da Avenida Brasil, junto à praia dos Ingleses, da Luz e do Ourigo em que eram as velhas famílias britânicas endinheiradas que se estabeleciam.
3 – A discussão da história da arquitectura é, em grande parte, obra de entendidos, mas a cidade e a sua memória é partilhada por todos. Dos edifícios, é certo, mas também do plano urbano, das gentes, dos hábitos e até das funções dos lugares. A mim também me faz confusão que autocarros de japoneses que aterram no terreiro da Sé dêem tanta ou mais importância ao pelourinho da década de 40 que a que dão à medieval Sé. Ou que se confunda o neo-manuelino com o Manuelino do século XVI. Mas a cidade e a sua memória é de todos e não dos técnicos que, por muito que possam aconselhar, opinar e avaliar com qualidade as situações, nunca poderão ultrapassar a opinião do todo e da memória que ali se desenvolveu com o tempo, quer seja pela sua visibilidade territorial (em frente à praia), quer seja pelo seu estilo vistoso e espampanante.
4 – Em última análise e em contradição a minha defesa do edifício, temos que aceitar também que qualquer perda é facilmente engolida pelo tempo e por uma natural amnésia colectiva. Isto, quer a destruição se refira a uma peça simbolicamente importante para o grupo, quer seja uma peça adorada pelos técnicos. Veja-se o caso da Porta da Vandoma. Até 1855 representava o próprio Porto e ainda faz parte do brasão da cidade. Ela partiu à custa da obsessão com a mobilidade interna da cidade e muito se chorou pela sua destruição na altura e até livros se escreveram sobre a sua partida. Hoje em dia, se falar com portuenses nascidos e criados na cidade, que se arrogam de ser tripeiros de gema, a grande maioria nunca ouviu falar da porta ou não faz bem ideia do que era ou onde se situava.
5 – Para terminar, o ideal é o equilíbrio entre a técnica e a memória colectiva. Sem radicalismos nem na acção sobre a cidade, nem na sua museificação. E, neste caso, pela singularidade da peça e pelo que ela significa na história da cidade e sentimento colectivo, ela deve ser preservada.
Ah! A história do sapateiro é, de facto, muito interessante, mas serve mais para percebermos o ponto a que ela chegou do que para entendermos a origem do edifício.
